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O Carlos tem a expressão bela de um gaiato

O Carlos tem a expressão bela de um gaiato, um breve aroma frágil, um torpor da manhã. É assim, como o rumor dos rios ou o murmúrio do vento. Ou antes, a tarde inteira a lavrar na planície tépida. Não sei de que noites cruas vieste, para trazeres nos olhos a claridade toda das manhãs brancas!

 

No Carlos, o que se ouve mais é o silêncio. A sua voz é um sussurro magoado apercebido apenas por entre a folhagem das palmeiras bravas.


 

O Carlos não sabe que as águas que passam por baixo das pontes estão envenenadas, ele não sabe dos desgostos que o vento espalha, não sabe que o despeito é a razão de se ser egoísta e que os homens vivem com armas nos bolsos. Não sabe que o céu é azul porque os homens assim o pintaram, que as árvores podiam ser de outra cor, ele não sabe que até o sol existe para os homens pouparem eletricidade. Não sabe e acha tudo natural…


 

O Carlos vive com a mesma sem-razão de tudo o que vive contente de ser, sem saber.


 

Um dia chegou ao pé de mim, tinha medo de perturbar o silêncio, depois falou, lentamente, palavras sibiladas, sussurradas como o vento, e disse-me, como quem profere uma blasfémia: sabes, estou feliz.


 Belo, não acham?

 


Este texto foi publicado na minha juventude no Suplemento Jovem do Diário de Notícias, subordinado ao tema Belo


 

Comentários

  1. Fantástico Fernando.
    Ainda bem que te reencontrastes, com o teu talento, agora desperto e a fazer tanto sentido.
    Parabéns continua..

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