Vou passar todo o meu tempo a escrever-te um poema. E quando te deitares comigo a teu lado sobre o limbo da noite acordada para veres os miosótis dos meus olhos a crescerem, como dizes, para o alvorecer dos teus sonhos perfeitamente incrédulos e cheios de esperança ainda de algum sentido que torne provável a irreal exatidão da vida que em vão tento trazer para o meu poema, perfeitamente irreal, e eu sussurro-te então ao ouvido palavras sem nexo nem sentido para provar isso mesmo em que tu, como sei, não acreditas, eu torno a voltar ao princípio para encontrar o rumo viável das palavras.
Há pouco tive um impulso! Fui tomar café, passei por uma banca de jornais e comprei o Expresso. Foi mesmo um impulso. Não tinha nada pensado comprar o jornal. Há muitos anos que não compro um jornal em papel. E mesmo no digital, cada vez leio menos. Tanto que vou terminar com uma assinatura anual de outro jornal. Mas soube-me bem sentar-me num espaço com poucas pessoas e desfrutar lentamente da leitura do jornal, lembrando-me dos tempos antigos que, chegando a sexta-feira, a compra de um semanário era o início de um enorme prazer.